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- Sinopse
- Trechos do livro
- Opiniões
- Autor
"Um jovem escritor caminha rumo à editora onde assinará o contrato de publicação de seu primeiro livro. No tempo que transcorre entre ouvir um estampido e receber o impacto do projétil que estilhaçará sua cabeça, reconstitui a vida até aquele venturoso dia que, não sabe, é o seu último. Bem assim: num instante, em meio ao trânsito da grande cidade, morre mais um poeta vitimado por uma bala perdida. A poesia — sentimento e delicadeza — explodida pelo duro metal do não-pensamento. E é isso: Beto Canales, em suas narrativas, denuncia o que tantas vezes já foi chamado era do vazio: o tempo das relações superficiais, onde se impõem não sentir e não pensar. Essa estupidez nossa de cada dia, espaço reservado para o nada. Como em ‘Insólita paixão’, onde durante todo o tempo o personagem não reconhece ser, ele próprio, a causa de seus males. Termina, no suicídio, atribuindo sua alienação ao ‘outro’.
Não é por acaso que o conto que dá título ao livro, inicia com a frase“creio que estava sentado meio de lado e não vi a vida passar”. Soterrados por uma época onde ter é mais do que ser, o risco é passarmos a existência perdendo oportunidades, lembrando, só na hora da morte, o que se deixou de usufruir.
Muito já se falou no artista como ‘antena da raça’. O autor de ‘A vida que não vivi’ merece essa denominação: captou e nos retrata a tragédia moderna de criar, todo santo dia, uma sinistra oportunidade para a destruição da alma. Talvez a redenção se encontre na personagem de ‘Paloma’: sua vida não está à venda, apenas seu corpo. É muito tocante a imagem dessa mulher — Bartleby redivivo — que consegue recusar a aparência.
No final da leitura, só podemos agradecer a Beto Canales: bom não teres vivido essas vidas. Excelente o fato de pensares, teres te mantido íntegro e em condições de elaborar os contos deste livro. Oxalá sejamos merecedores de tal oferenda."
Juarez Guedes Cruz
"Saiu eufórico, não só pelo que havia comprado, mas pelo diálogo. "Viu?" - esbravejava - "só frases curtas. Uma negociação toda sem delongas. Sucinta. Objetiva." E logo depois de voltar para a estrada, cartão, carreira, riso, fungada, riso, carreira, fungada, riso, carreira e mais estrada. E assim foi. E assim aconteceram repetidas vezes: cartão, carreira, fungada, carreira, fungada, riso, carreira. Quase sempre igual. O sangue sempre quente. As frases sempre curtas, as palavras cuspidas, os ouvidos quase surdos, a música cada vez mais alta. E novamente: cartão, carreira, fungada, carreira, fungada, e, estrada. O riso perdeu o lugar. O riso perdeu-se nas feições sérias e marcantes. No sangue. No gosto que entrava pela garganta. Na ânsia que saía da garganta. Nas batidas descompassadas, rápidas e graves do coração. No turvo em frente aos olhos. Na música que ia sumindo. Nas lembranças. No medo. A música sumiu. As batidas graves também."
" - Quando se quer parar, não se pode; quando se pode, não se quer. Ouvi isso dia desses, mas não creio, porque paro na hora em que quiser! Afinal, não é porque vim do pó e ao pó voltarei, que isso acontecerá através dele! A longa frase pareceu sair perdida entre o barulho do vento que entrava pelo vidro aberto e a música alta. Com mais volume do que precisava, um jazz bem compassado desfilava solos de todos os instrumentos, com um pouco mais de tempo para o sax, que parecia insistir num improviso alucinado, em desarmonia com o resto, acompanhando, porém, a velocidade em que iam. A paisagem linda, com uma luminosidade tênue e avermelhada, passava pelas janelas transformando-se em riscado. Em breve a noite chegaria. As tragadas faziam com que a brasa do cigarro ficasse enorme e virasse cinza rapidamente, caindo sobre as calças sem o menor problema. A fumaça fugia alucinada junto ao vento. O nariz coçava, dormente, por onde escorria um pouco de sangue, fungado e fungado. Pela garganta o gosto meio adocicado a cada aspiração, formava um pigarro que provocava uma tosse desinteressada."
"Fica assim por alguns instantes. Baixa a cabeça e espera passar, como sempre fez. E passa. Quase tudo volta ao normal. Torna a sentir, o suor seca, a respiração normaliza e os olhos voltam a enxergar o muro alto logo em frente. Somente a voz não para, tornando-se ainda mais alta e constante, lembrando a ameaça materna. Subitamente, levanta e sai correndo, com a mão para trás como se ainda puxasse a irmã. Corre em direção ao muro com toda a força que ainda tem, sobre lixo e crianças, sobre porcos e cães, até alcançá-lo e vencê-lo num só salto. Continua a corrida sobre orquídeas e bromélias, flores e folhagens, e chega ao descampado. Sujo, suado e ainda mais feio, pega um galho grosso de árvore junto ao chão e segue em direção a dois homens que conversam logo em frente. Começa caminhando devagar e vai apressando o passo, até quase correr. Com um golpe certeiro mata o que estava ajoelhado e com outro o que tentava fugir. Para, baixa a cabeça e sorri. Fica ali, acocorado como sempre, esperando a polícia chegar. Não resiste a prisão, e, depois deste dia, quase foi feliz."
| Alguns comentários de pessoas que leram o A Vida que Não Vivi. Foram retirados os trechos que continham spoiler. |
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| Conheci o Beto na Bienal do Rio, mas só fui ler seu livro a uns 20 dias atrás. Fiquei impressionado com seus contos que, no mínimo, são excelentes! A densidade existente em cada um nos faz pensar a que ponto as coisas podem chegar e se já não é tarde demais. Poderia ser nosso vizinho, filho, ou nós mesmos, já cegos devido a um extremo desespero, ou ausência sabe-se lá de quê. Fica aqui meus parabéns, e indicação a todos aqueles que prezam por ler trabalhos de altíssima qualidade. Beto Canales ganhou um fã! Fico no aguardo pelos próximos trabalhos! |
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| Gerson J. V. Couto – Rio de Janeiro/RJ |
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"A vida que não vivi" nos faz mergulhar na profundeza da alma humana, em suas mais variadas formas. Os contextos variados desfilam personagens fortes, em vivências sempre intensas, que vão da alegria das pequenas escolhas ao desespero do sofrimento que leva à morte. É uma leitura que me fez pensar e repensar, me colocou frente a frente com alguns melindres existenciais... como a fragilidade da vida, a superficialidade das relações, as marcas psíquicas que delimitam nossas escolhas. Excelente obra! |
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| Angela Ruschel |
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"Aqui onde estamos parece a margem da vida, que está do outro lado da autoestrada." Frases assim, delicadas, sublimes, profundas e contundentes, fazem parte da escrita do Beto. Me impressionou a diversidade de seus personagens e a curiosidade causada pela leitura das primeiras frases de cada conto e, ao final, a sensação de prazer por ter lido um bom texto. Particularmente, acho que os contos do seu livro A vida que não vivi, tratam de escolhas e traçam um paralelo com a vida de cada um de nós, mesmo que não sejamos suicidas, não tenhamos que decidir quem vai viver ou morrer e nem vendamos nossos corpos noite após noite numa boate, passamos a vida escolhendo que tipo de pessoa vamos ser, daquela que é legal lembrar ou da que é melhor esquecer.
Beto, escolheste ser lembrado. |
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| Karen Scopel |
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Simplesmente imperdível. O livro traz uma rica mistura de vidas que nos fazem pasmar, pensar. |
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| Onofre Dias |
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Seu livro é fantástico. Parabéns. Algumas eu já havia lido. Mas outras são bárbaras. Parabéns. |
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| Cisticerco |
Eterno estudante de literatura, Beto Canales produz principalmente contos, apesar de atrever-se "cometer" crônicas. A universalidade de seus personagens e os lugares onde ocorrem suas histórias são marcas registradas, permitindo que aconteçam com qualquer um em qualquer parte. Cinéfilo apaixonado e assumido aprendiz de crítico de cinema, é também editor da Esquina do Escritor e do 3AM Brasil. Autor de A Vida Que Não Vivi, pela Multifoco, lançado na Bienal do Livro do Rio / 2009.
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Livrarias que também comercializam o livro:
Editora Multifoco
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