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Histórias da Noite - TerrorFantasia e Aventura.com - ação, fantasia e ficção científica.Pela Lente do PoetaA Vida é arte
 


O monstro

Cisticerco

 
 

Não sei ao certo onde ele estava até eu perceber sua existência. Minhas primeiras lembranças são ainda na infância. No começo imaginei que fosse um pensamento, uma lembrança. Não tinha certeza se era real ou imaginário. Mas foi em algum dia daqueles, que ele começou a ganhar forma. Aquele dia ele começou a acordar. Começou a ganhar vida.

Acredito que na verdade ele sempre esteve ao meu lado. Sempre esteve dentro de mim. Alguma coisa como um parasita. Dependia de mim para existir, para se formar e para crescer. Eu era o hospedeiro. Era eu que lhe mantinha vivo. Que lhe dava condições de se desenvolver.

Em algum lugar dentro de mim ele crescia. Não sei ao certo aonde. Talvez em minhas entranhas. Talvez no meu coração. Talvez dentro da minha mente. Seja como for, por anos e anos ele permaneceu ali, escondido em algum lugar. Sabe-se lá aonde. Vivendo paralelamente a mim. Esperando o momento mais adequado para sair. Para mostrar sua verdadeira face. Foi aprendendo comigo como tudo funcionava do lado de fora. As relações humanas, as diversidades, as alegrias e as tristezas dos indivíduos, meus pontos fortes, meus pontos fracos. Eu era apenas um fantoche, um brinquedo que excursionava pelo mundo exterior, coletando informações, enquanto ele fazia suas anotações, seus estudos, tirava suas próprias conclusões e fortalecia sua capacidade de entender o funcionamento do todo. Com o tempo foi se especializando. Sem pressa, foi compreendendo o que teria que fazer. Com calma, foi entendendo seu destino. Esperando o momento mais adequado para ganhar vida. Eu era a fonte de energia. Um casulo, onde ele se formava, esperando o melhor momento para sair.

Sempre me perguntava se ele havia nascido junto comigo, no mesmo momento, ou tinha entrado em mim através de algum corte, alguma ferida, surgido a partir de alguma doença. Alguma coisa desse tipo. A verdade é que, de repente, algumas atitudes minhas não pareciam mais ser minhas. Algumas ações eram desproporcionais a minha forma de agir e pensar. Algumas eu nem lembrava que havia cometido. Chegava a pensar que podia ter sido um sonho. Que alguém queria me prejudicar. Que havia um complô contra mim. Como na vez que todos me culparam por queimar o filhote de gato. Eu nunca faria aquilo. Eu tinha certeza que não. Mas todos me acusavam de ter feito. Alguns até diziam ter me visto ateando o fogo. Cheguei a imaginar que todos me odiassem, por isso procuravam me prejudicar. Não me lembrava de ter feito algo semelhante, muito menos acreditava que poderia fazer. E aos poucos eu tinha cada vez menos amigos.

Mas essa não seria a única vez. Outras histórias viriam. Outras piores. E a cada momento eu percebia mais que alguém estava manipulando minha vida. Que alguma coisa dentro de mim estava tentando se apossar da minha realidade. Que alguma coisa tentava me controlar. Tomar o meu lugar.

Depois de um tempo ele sumiu. Raramente sentia sua presença. Na juventude eu quase não me lembro dele. Cheguei a pensar que talvez tivesse morrido. Deixado de existir. Tivesse sido apenas imaginação. Pensei errado.

Aquela noite, aos trinta anos de idade, quando nada mais poderia piorar a minha vida, foi quando ele resolveu ganhar a sua. Ele estava totalmente louco, ensandecido. O ódio que surgia de dentro dele percorria cada veia do meu corpo. O mau se propagava em cada célula do meu corpo como um raio. Eu podia sentir a força do seu ódio crescer por baixo da minha pele. Eu podia sentir toda aquela maldade acumulada dentro de mim. Através dos meus olhos, eu podia ver o verdadeiro ódio, a verdadeira vingança. Podia ver a fome, a sede, o desejo, a ganância, a revolta e a raiva. Todas as mais horríveis sensações, acumuladas durante anos dentro de mim, cresciam de forma exponencial. Eu ficava cada vez mais forte. Eu podia sentir meus músculos dilatando-se como num lutador, nos breves segundos que antecedem o primeiro soco. Era fantástico. Como era bom sentir aquilo. Não me lembrava de nenhuma droga que fosse capaz de me fazer sentir algo tão perfeito. Como um alienígena, ele atravessou meu corpo. Podia sentir minha pele se rasgando, enquanto cada centímetro daquele Ser ganhava o mundo exterior. A larva que morava dentro de mim havia crescido e, agora era hora de rasgar o casulo e sair para o mundo. O momento da ecdise havia chegado, estava na hora de mudar de exoesqueleto. O anterior não era mais adequado para enfrentar o novo ambiente.

Parado em minha frente, ele me olhava. Seus olhos tinham a visão da loucura. Eram grandes, brilhantes e riam de mim. Divertia-se com a minha cara. Seu corpo recém saído de dentro de mim, ainda deixava escorrer filetes de sangue pelo corpo. Meu sangue. Meu corpo. Ele estava vivo. Eu estava morto. Finalmente havia chegado o dia. O grande esperado dia. A imensa criatura em minha frente era o reflexo do ódio e da maldade acumulada dentro de mim por todos os meus anos de vida. Com um golpe de suas garras, dilacerou a minha face. Caído no chão, ainda pude vê-lo se afastando pela escuridão das sombras.

Aquela foi a primeira vez que matei alguém.
 
 

  João Molon, 24/4/2010 13:38:04
 
Me senti frente a frente com um psicopata se confessando. A forma que vc escreve é aguçante.

Parabéns!
 

  afobório, 10/2/2010 08:16:29
 
leia-se monstro.
 

  afobório, 10/2/2010 08:15:03
 
você é mesmo um monntro. e como sempre digo, quem sabe o que existe lá dentro, não é mesmo?
sorte, luz e sangue, sempre.
 

  Andre Esteves, 4/2/2010 16:05:16
 
Concordo.
 

  Mary, 2/2/2010 11:25:08
 
Excelente.
 

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