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Carmas de nossas carnes
oscar bessi filho
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Surpreendo notícias fugidias nos olhos de Deus e pressinto que ele, outra vez, escolhe um inferno qualquer para me encontrar. Não ligo. Beijo a ferida que se abre invisível sob a derme e finjo não perceber o quanto ela se renova e me maltrata. Procuro, nos vãos da lembrança, um certo costume e tento me confortar. Não haverá o punhado de preces rendidas ou lágrimas em desespero, sinto muito, desta vez preciso desapontá-lo. Cansei. O que poderia ser ódio toma meu corpo num desânimo que sei passageiro, mas inevitável. Certas coisas, descobri, acontecem e se repetem apenas em nome de uma birra sádica, na satisfação de novamente mostrar como sempre se desfaz o que poderia ter sido feito, e ter sido quase perfeito, se de fato fosse. Deixo um pensamento medíocre se lastimar egoísta, misturado entre as gotas de céu que agridem a janela em riscos confusos. Desisto de esmurrar o vazio e sem querer me deixo cair numa perplexidade que chega inebriante. Porque é um rancor amordaçado que trago sob o silêncio, é saudade o que evito e que me rouba o ar, tenho um inimigo aqui, e ele é forte, ele é franco, preciso muito matá-lo. Ou tenho que deixá-lo livre de uma vez por todas, porque este inimigo tem meu segredo entre seus dentes que não podem me sorrir. Porque este meu inimigo é o maior inimigo de qualquer homem e traz consigo, raptadas, as minhas velhas vozes vaporosas, minhas novas fugas covardes e minha única poesia, violada. Porque este maior dos maiores inimigos do universo tem teu rosto de anjo e o tal amor que insisto em não ter por mais nada ou ninguém nesta vida além de ti. Então deixo o corpo me desobedecer e pulo a janela, ignorando os espinhos e a lama e a altura que tanto temi. Ganho sem dor nem vontade a rua estreita e mal iluminada como minhas memórias, faço o sinal da cruz num gesto rápido que é frio ou medo ou solidão, beijo meus dedos trêmulos numa fé agonizante e fecho os olhos. Vou te encontrar.
Enquanto a chuva lambe meus delírios, tento descobrir qual abismo abriga nossas almas, qual caverna quer vomitar nosso segredo fossilizado, porque insisto, há alguma maldição que vem lá de quando morremos, muitas vidas antes desta, teimosos por qualquer amor tão forte que provavelmente ameaçou todos os ódios ao seu redor. Porque não há sentido nisto tudo, e cansei de esperar de Deus uma resposta, ou de esperar de mim uma derrota definitiva. Então aqui me vejo, outra vez e como sempre, empurrado pelo acaso magnético que nos faz topar, um com o outro, em cada esquina equivocada do destino, mesmo que doa tanto, mesmo que tenhamos decidido, no comum acordo que esqueceu de ser sincero entre nós dois, nunca mais nos vermos. Mas é assim. Não preciso te procurar, eu te encontro. Não adianta me evitar, estou em ti. Por qualquer razão, que não alcançamos, quando percebemos estamos perto, estamos juntos, simplesmente estamos. Então vem esta luz que sai do olhar e inunda e abraça nossas carnes, ignorando o que mais há, como se fôssemos definitivamente únicos, Adão e Eva, vontade e maçã, reluzindo desejos sob estrelas, estrelas estas que só sabem brilhar intensas quando nos encontram, e nos amam nos amando, antes mesmo que os corpos se unam e tudo seja nada além de suor de fome e sede. E o que se segue é o incêndio inevitável, a queima das leis, a deliciosa loucura que transpira a alma e sepulta as armas que estavam a postos. O toque que é troca e desvenda e revela, como se fosse sempre a primeira vez, pois só tua boca sabe dizer dos desejos ocultos em meus recantos, e dos tantos sonhos adormecidos que me atormentam e pedem liberdade. E de teus encantos e de tuas palavras sujas retorna uma tal alegria que tenho de comemorar a vida, e que em tua ausência quase esqueço. Assim como redescubro cada milímetro teu onde desperta a fêmea ardente, a paixão animal, o poro saudoso de minha saliva. E justamente ali, na leitura de tuas faltas que são meus relicários, tenho vontade de rir da cara de Deus, por achar que consegue tudo, por pensar que se vingou de mim e me amarrou na eternidade imposta. Mas que não pode evitar o que é carma e ninguém, nem ele próprio, deve entender. Então recebo as águas mornas e adocicadas da tua essência como um bebê que recebe o suco de sua mãe e adormece, feliz e seguro, porque a mulher, que nunca deixou de ser parte dele, nele ali está, e pulsa e existe. Assim, tudo o mais perde a importância e somos outra vez os dois meninos que brincavam na mata, e na mata deixaram de brincar quando descobriram o amor.
Sempre soubemos que os dias e as noites passavam e nos levavam embora outra vez, pois nos tornamos proibidos, um ao outro, para sempre, porque foi dito assim, na voz mais forte que não era nossa e era de todos, da vida, de Deus ou do destino. Porque eu era um menino negro e teu sobrenome vinha do leste europeu e nossa cidade miúda demais para entender e permitir o que sentíamos. Porque quando te fizeram partir cortei meu corpo e espalhei gotas de sangue e ódio sobre as folhas onde deitamos, e com teu nome e nossa maldição feri as lágrimas do vento que me aconselhava a te esquecer. E da mata que foi nossa por cumplicidade e pureza só voltei quando decidi que mulher nenhuma jamais teria meu amor, e decidi ser padre para pleitear uma chance ao destino. Até que Deus armou sua primeira peça e, num dia em que o sol teve vergonha de nascer, eu te casei.
Na igreja lotada, os que erguiam mãos aceitando meu caminho até Deus, aplaudiam minha segunda morte. Teu noivo sorria.
Ganho as ruas ignorando as poças que gelam meus pés, e é saudade o que busco agora. É lembrança, é desejo, é febre. Um vazio de mim mesmo que me faz rasgar a batina e correr nu na direção contrária, pois não tenho coragem de seguir, eu que te amei, eu que te vi partir contra teu desejo, eu que nada mais sonhei além de ti nesta vida inteira. Não posso ir adiante. Jamais conseguiria te pedir que dissesse, na última força da tua voz que foi minha em lábio na orelha, que venha o senhor Jesus Cristo. Não, não vou fechar tuas pálpebras sem beijá-las com sofreguidão, não vou te entregar inerte outra vez ao carrasco, não na cama que abrigou a entrega proibida e que foi nossa sem jamais ter sido, nas noites de fuga e saudade. Chamem outro padre, todos sabem os sacramentos. Todos conhecem os ditos da extrema-unção. Eu, não. Eu não posso. Não contigo. Deixo a chuva passear em meu corpo como teus lábios adolescentes um dia passearam suando desejo e medo, e ignoro a nova peça, o último encontro, o repetir do castigo. Te sei viva em meu peito, nada mais me importa.
Desobedeço ao destino, sento na relva encharcada e desisto, definitivamente, de rezar. Tenho um trinta e oito que me beija a têmpora, como beijou a tua e de teu marido ainda há pouco, e talvez ele também queria nos separar, pois perde forças. Jogo na lama o crucifixo e, dobrado em mim, fico aguardando uma nova vida.
Deus e seus infernos. De onde sempre diz que me resgata, mas onde sempre insiste em me encontrar.
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Juliana Kusiak,
20/8/2010 19:45:26 |
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Uma confissão talvez? Um conto que nos prende do começo ao fim. Você está de parabéns. |
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Rodrigo Sena,
19/2/2010 20:49:36 |
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Metáforas bem construídas, tenso, dramático... pode sentir a loucura e a dor.
Um conto de tirar o chapéu. |
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Caio Riter,
16/10/2009 20:00:20 |
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Oscar, dor profunda este teu conto. A gente mergulha e emerge molhado pelo sentimento que se transmuta em palavra certeira, afiada: necessidade, creio, de um bom conto. Ah, vou ousar dar uma sugestão. Termina o conto nesta passagem: "De onde sempre diz que me resgata, mas onde sempre insiste em me encontrar". Ela é forte demais, é o fim. Mesmo.
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Aerte,
15/10/2009 21:57:23 |
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Errei feio no teclado! "beleZa" |
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Aerte Lima da Silva,
15/10/2009 21:55:02 |
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A belesa e a profundidade deste texto recomendam admirar, refletir, silenciar e nao dividir a emoçao da releitura pausada. |
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