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O Sentimental
Richard Coen
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O SENTIMENTAL
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O mundo era diferente quando levaram meu anjo.
Havia mais vendedores no parque: picolés coloridos, pipoca doce, amendoim torrado. Bexigas mágicas que subiam sem nunca cair. Havia patos flutuando no lago, pintinhos comendo milho jogado, pavões exibidos sobre a grama. Quando o mundo era diferente havia mais animais. Os macacos eram engraçados, mas às vezes intimidavam. Alguns tinham partes no corpo onde o pêlo rareava. Simplesmente não crescia. Disputavam a comida brigando entre si, produzindo sons irritantes.
Podia não ser o mundo perfeito, mas era um mundo facilitado.
Naquele tempo os corais se apresentavam na concha acústica. A demanda era tanta que precisaram criar um rodízio. Aposentados, Universitários, Trabalhadores. Cada um com seu próprio dia dedicado. Eu lembro bem, havia orgulho e precisão nas vozes perfiladas. Canções eruditas acachapantes que faziam você se sentir maior que o próprio parque. Havia platéia e programação especial em semanas de feriados. Chapéus e charutos acompanhando os senhores. Colares brilhando no pescoço de madames brilhantes. Havia até músicos de verdade em roupas escuras elegantes.
O samba e o chorinho. Sim, eles também.
Havia palhaços, não posso esquecer os palhaços. Malucos usando perucas com lâmpadas pisca-pisca nas pontas. Vagavam sem direção definida, então encontravam um visitante engraçado e o seguiam. Imitavam os trejeitos da vítima até a hora em que eram descobertos. Então se ajoelhavam e pediam perdão com as mãos juntas apontando o céu.
Havia os ensaios de balé das menininhas. O futebol disputado dos mocinhos. O pique pega com a turma inteira reunida. Havia encenações de Alicie no País das Maravilhas e versões de O Pequeno Príncipe. Quando o mundo era diferente havia um imitador de Chaplin que apertava sua mão e entregava uma flor, o bigode fino pintado sobre a boca, o perfeito andar trôpego.
Já os fotógrafos trabalhavam sob mantas negras enquanto escultores talhavam o seu rosto em pedaços de madeira.
“Eu quero ver os homens de pedra”, o anjo dizia, pulava e esperneava.
Era sua pirraça para ganhar outra visita ao parque. “Os homens de pedra não vão escapar!”.
Tinha quatro anos quando o levaram. Amava o parque tanto quanto eu o amava.
Eles ainda estão aqui, os homens de pedra, bustos expostos para o público minguado.
Santos Dumont. Henrique Moscoso. E outros.
Na verdade são de cobre, é só que, bem, não é certo contrariar um anjo.
“Como eles viraram pedra?”, perguntava.
“É um mistério, querido”
“O que é um mistério?”
Havia muitas crianças antes do mundo mudar. Excursões chegavam do interior em ônibus abarrotados. Colégios completos com professores, diretores e alunos entusiasmados. Nesse tempo o parque foi o prêmio principal de muitas gincanas. O grande prêmio, disputado como merecia: intensivamente.
Hoje em dia eu caminho devagar sobre a estradinha de areia, arrastando o pé e deixando pegadas alongadas. Atravesso as pontes, sento e observo. Tenho sempre uma caderneta no bolso. Minha visão declinou, mas ainda sou capaz de imaginar o que saí na ponta da caneta. Se falha finjo que não aconteceu. E se escrevo algo maravilhoso, mostro a um estranho qualquer e peço a opinião. A maioria não é sincera no que diz, mas eu me desculpo pelo incômodo de todo modo.
Sento e observo.
Penso em como o anjo prosseguiu. Às vezes me pego rindo sozinho, imaginando um orfanato exclusivo para crianças especiais: aceitamos apenas celestiais bem nascidos, diz o aviso no portão. Mas, na maior parte do tempo, sou realista e vejo o anjo em uma imagem com a família sem rosto que o comprou, talvez na Itália, aprendendo sobre guerras e imperadores. Eu quase consigo tocá-lo. Ele envelhece bem à minha frente, translúcido, sem volume e sem sombra. A voz suave dando espaço ao grave potente.
“O que é um mistério?”
Então o anjo acena e desaparece.
Mesmo em meus sonhos ele sempre desaparece.
A gangorra era o seu brinquedo favorito. Sem desperdiçar o precioso tempo, arrebatava um novo colega e os dois se divertiam subindo e descendo. No ponto mais alto largava a mão do ferro e batia palmas.
Também apreciava o balanço, o vento contra o rosto desmanchando o penteado. Um anjinho de cabelos cacheados engolindo o ar, pois é isso o que os anjos fazem, sabe? E quando se cansava ia conversar com os homens de pedra. Sentava-se em posição borboleta diante dos bustos e mostrava seu arsenal de caras e bocas. Eu me afastava, dando a ele privacidade na fantasia.
Eu me afastava. Como poderia prever?
As demais crianças disseram não ter visto nada anormal na tarde que o levaram. Ou ninguém. Os pais e mães que abordei repetiram o discurso.
O chefe dos guardas ordenou que as quatro saídas fossem bloqueadas e foi organizada uma busca, como se o meu anjo pudesse estar pregando uma peça em todos, escondendo-se debaixo d’água ou no alto de uma palmeira. Por horas, vasculharam sem sucesso os mesmos lugares inúmeras vezes. Quando deu por encerrado os trabalhos o chefe me abraçou dizendo sentir muito.
Conversei com autoridades o resto da semana. Desconhecidos que me consolaram dizendo entender como eu me sentia. Por mais que falassem, apenas duas coisas concretas acontecerem: abandonei o parque e os dias começaram a morrer vagarosamente.
Fiquei afastado tempo demais, compreendo agora, vivendo do trabalho para casa e de casa para o trabalho, caçando pássaros com uma rede invisível. Emagreci e me desgracei. Uma soma indecente de horas que jamais me serão retornadas. Preciso fazer algo a respeito. Ou me conformo em ser mais um busto imóvel decorativo.
Mas o parque mudou, tornou-se duro. Exigente em demasia, eu diria. Na paisagem desértica cada movimento é notado. Aí está uma problemática danada. Espere a madrugada e deixe uma moeda cair sobre a calçada e você verá as luzes se acendendo nas casas ao longo da rua. Esta é a metáfora que gosto de aplicar.
Com o parque é parecido. Ele pertence ao silêncio agora.
E não existe silêncio que não seja armadilha.
Quando o mundo era diferente havia mais distrações. Palhaços e vendedores. Músicos e atores. Mulheres e homens. Havia mais crianças, uma generosa oferta delas. Bastava servir-se e caminhar inserido na multidão entretida. Por isso, eu sento e observo. Sempre atento, feito um escoteiro.
Nada pode me escapar.
Eles levaram meu anjo e eu me transformei em um homem oco. O sentimental. Eles fizeram de mim um ser invisível, um inexistente, e é o que usarei em próprio benefício. Basta ser rápido e agir antes que as crianças desapareçam de uma vez por todas. Antes que minha vista faça tudo escurecer em definitivo. Ah, o definitivo, eu o encontrarei.
Ainda são quatro os portões dando acesso ao parque e eu estou de olho. Sento e observo.
Quando o momento chegar escaparei pelo oeste.
Como uma bexiga mágica, subirei a ladeira Santa Clara com um novo anjo e jamais descerei. |
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