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O mar e o café
Vanise Macedo
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O mar e o café
Da janela do quarto ainda posso vê-lo. O mar, tão belo e tão sereno... Jamais pen-samos no quanto pode ser cruel em determinados momentos. Sempre senti fascínio por ele. Representa, ainda, um pouco da vida e da morte. Muito embora nunca tenha entendido o porquê de tal atração. Gostei, sempre, de olhá-lo, esquecida das preocupações ou dos temores. Transmitia uma espécie de vibração que me contagiava, fazendo eu me sentir forte. Forte como, na verdade, não era.
Um forte cheiro de café invade meus sentidos...
Também vejo, de minha janela, meu filho brincando na areia, junto de meu marido. Inocentemente entretidos. Sempre os desejei assim, unidos e felizes. Sinto-me contente com eles. E gratificada. Cativei-os para mim, unindo-me a eles.
Sei que me amam como um dia já a amaram. Mas isso é passado. Percebo que a dei-xaram repousar em algum lugar da memória.
Johann, o menino de oito anos, acredita que sou uma mãe exemplar. Não somente ele, mas todos aqueles que me conhecem. Tenho piedade desta pequena criança que não tem sequer uma recordação viva da mãe, com quem conviveu tão pouco. Os carinhos que me faz são ingênuos e sinceros. Sente satisfação ao sair comigo, ou ao me apresentar aos colegas da escola. Tem orgulho pela mãe carinhosa e dedicada. Talvez tenha ouvido algum adulto dizer estes elogios. Não sei! Percebo que me ama como se eu fosse a responsável por seu nascimento, por sua vida.
Experimento a felicidade por intermédio deles. É agradável vê-los distraídos na areia. Constroem, com agilidade, pequenos castelos e, ao remodelarem uma torre, perce-bem uma onda mansa ameaçando invadir o projeto. O perigo não os abala. Riem e trocam olhares cúmplices pelo desmoronamento, dispostos a retornarem à brincadeira.
O forte odor de café absorve minha atenção. Não me sinto mais atenta ao que fazem.
Penso em meu marido, Ramos. Sempre tão gentil! Nunca fora bonito, mas tinha al-go que fascinava e encantava. Conheci-o no clube, no qual eu e Lisa, minha amiga, costumá-vamos ir.
Ele impressionou de forma única. Era instrutor de natação, e sua paciência e edu-cação cativaram. Não dissemos uma a outra o nosso interesse por aquele homem. Eu manti-nha o meu em segredo, julgando que a revelação pudesse nos abalar. Ela, possivelmente pensando da mesma forma, fez igual. Não queríamos nos afastar, nem sonhávamos com desavenças.
Três amigos. Assim nos tornamos. Grandes e verdadeiros amigos. Talvez não per-cebêssemos que a tríade era algo arriscado demais, nem até aonde poderia nos levar. Longo tempo camuflando sentimentos, pensamentos e desejos.
Eu e Lisa éramos muito amigas, confidentes e companheiras. Partilhávamos segre-dos e novidades de outras colegas. Contávamos tudo sobre nós, uma a outra. Quase tudo. Quando o assunto era referente a Ramos, preferíamos desviar o tema.
Hoje, reconheço que éramos conscientes da fuga. Sabíamos que definir o par era eliminar um terceiro - uma de nós. Parecia doloroso demais. Era excluir alguém que, até então, não era excedente. Portanto, preferíamos adiar o final, acreditando que nunca precisaríamos defini-lo.
Crescia dentro de mim uma paixão destruidora, nunca sentida. Nunca experimen-tada. Ao vê-lo, acreditava que a felicidade tinha nome e forma. Então, era capaz de esque-cer Lisa e nossa relação de segredos. Relacionamento que talvez se fizesse, também, entre nós e Ramos que, possivelmente, não imaginava nosso amor duplo!
Acreditava que ele deveria ser meu. Eu, dele. Não se deixa de viver para dar feli-cidade a outros, é o que sempre tive em mente. Era preciso lutar por esse amor mesmo tendo que ultrapassar obstáculos.
Diante de Ramos, eu era forte. Diante de Lisa, porém, tudo parecia difícil. Eu ti-nha que ser, então, a amiga e a confidente. Ela também sentia o mesmo; tenho certeza disto! Sabíamos, dentro de cada uma, que lutaríamos juntas por nosso objetivo, mas cada qual de um lado. Duas almas gêmeas apaixonadas pelo mesmo homem. Era romântico pensar assim. Víamos, no íntimo, que nossas ideias eram as mesmas. Faltava a ambas a coragem de falar; havia entraves impedindo-nos de manter uma conversa sincera.
Camuflamos o máximo que pudemos. Eu resisti por mais tempo. Lisa e Ramos, não. Assim, fui comunicada, por meio de uma conversa cheia de rodeios e de precauções, do casamento dos dois.
Ainda é cruel lembrar aquele momento. Alimentava tantas esperanças! Julgava-me tão igualada à Lisa naquela disputa secreta em que nos envolvemos... Não era capaz de entender o rumo que nossas vidas tomavam. Ela teve coragem de se manifestar? Ele pôde se declarar a ela? Por que justamente a ela, se me parecia que eram para mim aqueles sorrisos, os doces olhares, os cumprimentos delicados?! Era possível que tivesse fantasia-do tudo aquilo?!
Duro golpe do qual não me recuperei. Apenas adiei.
Lisa convidou-se para ser madrinha de casamento. Aceitei, sem mencionar minha decepção pela decisão dos dois. Ambas dissimulavam, por certo. Sempre soubemos que uma percebia o amor da outra. Amigas que se conhecem tão bem se reconhecem com faci-lidade. Ainda mantínhamos o desejo da amizade, da amizade que unia.
Disfarçamos. Não era assim que preferíamos? Permaneceríamos lado a lado, como amigas, sem tocarmos no assunto.
Casaram. Senti um calafrio de dor durante aquela cerimônia. Pensava que teria si-do melhor se nós nos revelássemos de uma vez.
O odor do café ainda não me incomodava naquele período.
Naquela época, Ramos não me amava. Devia, realmente, estar apaixonado por Lisa. Percebia-se isso, claramente, pela felicidade que deixavam transparecer quando estavam juntos. Por isso, creio, sentia-me sufocada na companhia dos dois. Tinha necessidade de sair e de correr em direção ao mar. Tentava me recuperar da estranha sensação que che-gava até meu corpo.
Lisa era muito feliz. Todos notavam seu prazer ao arrumar os objetos de Ramos. Era com satisfação que organizava suas vidas. Tamanha alegria era sentida por ela quando o esperava regressar do trabalho!! E ele chegava, sempre trazendo uma flor.
Reconheço que a felicidade daquela casa parecia me incomodar. O lugar poderia ser meu, mas Lisa o havia tomado e já o tinha preenchido com sua doçura e beleza.
Mas ela era, ainda, minha melhor amiga. Sentia necessidade de ajudá-la no que fosse necessário, dava-lhe conselhos sinceros, acompanhava-os nos passeios, arrumava com ela a vidinha dos dois.
Se ficava angustiada por ter de ver o homem que amava com Lisa, era confortan-te, por outro lado, estar perto dele. Tocar em suas roupas... Ler o jornal em que pusera suas mãos... Aceitar uma xícara de café que me oferecia... (É; não me provocava náuseas o cheiro da bebida ainda...)
Quando Johann nasceu, Lisa parecia a mulher mais feliz que alguém poderia co-nhecer. Eu pensava em como Ramos poderia fazê-la tão plena. Como poderia me fazer assim...
O filho simbolizava a continuação daquele casal e da felicidade. Mesmo assim, amei a criança, esquecendo que era dela e não, minha. Parecia ver o meu filho com aquele homem que despertara minha paixão.
Lisa percebera minha afeição profunda e, por isso, convidou-me para amadrinhá-lo. Eu imaginava se ela atava a minha vida à deles de uma forma proposital. Por mais absurdo que fosse, notava que minha amiga, sabendo de minha paixão secreta, fazia questão de me infiltrar em sua casa, de me convidar para as viagens, para os passeios íntimos ou para compartilhar de seu dia-a-dia. Cada vez mais compreendia que o laço que nos unia tornava-se impossível de ser desatado. Parecia que Lisa estabelecia-o propositadamente, com o intuito de me fazer sofrer, como se quisesse me lembrar, a todo o momento, que ela fora o a vencedora.
Contudo, continuava amiga, companheira e confidente.
Desde então, Johann foi se acostumando à minha presença e à minha atenção. E Ramos também. Eram comuns as conversas de fim de tarde ou no início da noite, quando eu, Lisa e Ramos falávamos sem parar sobre inúmeros assuntos banais. Todos se divertiam com conversas, jogos e passeios.
Lisa e eu devíamos entender que, de certa maneira, o triângulo permanecia, muito embora eles, agora, os dois estivessem casados. A disputa, de alguma forma, continuava; ainda que não reconhecida por nenhuma das duas.
Não me lembro bem como tomei conhecimento da morte daquele homem. Recordo apenas a forma: ingerira um pouco de veneno em pó, misturado a uma bebida, e morreu poucos minutos depois. Sua morte foi apenas descoberta por causa do pequeno vidro, esquecido num armário. A autópsia não era capaz de revelar a ingestão do produto. Não consigo recordar com clareza se foi Lisa quem me contara a tal história que ficou bastan-te conhecida no bairro.
Aquela imagem, do veneno colocado em um líquido, parecia tão verossímil. Não entendia por que, mas ficou em minha mente. Vieram parar em minhas mãos alguns livros de crimes, recortes de jornais, venenos... Lia sobre produtos químicos. Relia a notícia do suicídio daquele vizinho, no jornal já amarelado.
Surgiram imagens. Vi Lisa erguendo uma xícara. Dentro, um pouco de café e um pouco, também, do produto. Daquele pó. Bebia com delicadeza, como sempre fazia. Eu afastando-me, alegando uma desculpa qualquer para não presenciar. Encostada à porta, ao lado, esperava o efeito da droga; longe de seus olhos, mas perto dela. Certa de que era preciso nos resolvermos. Em pouco tempo, ela estava recostada à cadeira. Tão serena que, se alguém ali chegasse, julgaria estar descansando, à espera do jantar. Tudo tão rápido. Menos sofrimento que o sentido por mim, durante todos aqueles anos.
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Posso afirmar que ela não parecia estar morta. Mantinha o semblante sereno e be-lo. Talvez desafiante, ainda. Sim; não sei se mencionei antes, mas Lisa tinha um ar desafi-ador.
Todos sentiam sofrimento e dor. E a ideia do triângulo desfeito passou pela minha mente.
A casa, antes alegre, tornou-se vazia e triste. Sentia saudades de Lisa, minha ami-ga, solidária e cúmplice.
O triângulo, por fim, se desfizera...
Casamos, eu e Ramos, depois de algum tempo. Acredito que me ame agora. Minha dedicação e devoção conquistaram-no. De início, apenas cedeu à necessidade de construir um novo lar para ele e Johann, à necessidade de elevar um outro castelo.
Eles permanecem lá fora, brincando na areia úmida. Aproxima-se de mim, mais uma vez, o odor enjoado do pó de café misturado à água fervente. Não consigo respirar mais. Não posso sentir mais. Preciso sair. Não quero mais lembrar.
Penso em ir até o cemitério para deixar umas flores à Lisa. Talvez vá, também, ao clube. Ou à praia.
Subitamente, ao levantar, vejo a empregada junto à porta. É ainda a antiga criada de Lisa. Sorri simpaticamente para mim e interroga se desejo tomar um pouco do delicioso café que acabara de fazer...
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