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No labirinto
Ramon Franco
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por Ramon Barbosa Franco
Todos sabiam que no meio daquele quarteirão havia a entrada do labirinto. Só passava pela rua quem não tinha qualquer outra opção. Sem porta e com apenas o sinal da dupla machadinha, o acesso para o interior temido tinha um ar inofensivo, como o da minhoca que esconde o anzol do peixe.
Um senhor, pensava então que desavisado, apontou lá do outro lado da rua e seguiu caminhando no sentido do labirinto. Vinha com um sobretudo e sua bengala ia dando o som dos passos. Pude deduzir que se tratava de um deficiente visual e me enchi de coragem para ir ao seu encontro e, assim, tentar evitar sua queda para o lado do desconhecido.
Mas não adiantou, quando o senhor passava pela frente da entrada, se virou de forma militar e marchou para o labirinto. Gritei, porém o jeito era também entrar e tirá-lo de lá.
- Senhor... Senhor... Senhor... Senhor... Senhor volte aqui! - berrei na eminência da porta.
- Silêncio, rapaz! Não sabe que deste jeito vai acabar acordando o Minotauro - me respondeu o homem, que já voltava ao meu encontro.
E sentindo a minha surpresa, foi severo:
- Não faz ar de mediocre, não! Você sabe muito bem quem sou e não venha achar que interpreto um certo Teseu da maturidade.
De fato, com a pouca claridade, identifiquei os cabelos finos caídos para trás e os dois olhos baixos. Realmente se tratava dele. Era Jorge, o grande.
- Então filho, quer que eu cante um tango lá do Caminito neste preâmbulo para acalentar Asterion em sua eterna fome ou pretende, realmente, que eu seja o seu cicerone até o final deste labirinto. Se ficar com a segunda opção, só não resolva me chamar de vovó Ariadne.
Não era uma decisão fácil de se tomar. Também não era sempre que Jorge aparecia por aquelas bandas e nem sempre teria esta oportunidade. Só vacilei se a memória do escritor seria bem mais fiel do que a escuridão.
- Maestro, aceito a segunda opção, mas não vai me chamar de Ícaro, porque não serei idiota o bastante de voar com umas penas coladas com cera. Lembre-se que de vôo eu sou referência tanto por Bartolomeu de Gusmão, quanto por Alberto Santos Dumont. Como o Padre Voador, também sou paulista e isto garante a maturidade em termos de céus - respondi.
- Reconheço a paternidade brasileira no mundo aéreo, nunca identifiquei isso nos dois irmãos Wright. Agora, mesmo eu, e os outros não sendo Dédalos, você já é Ícaro. Pelo menos para o Roberto, para o Miguel, para o Orígenes, para o Ernest, para o Graham, para o Rey e ''también'' para ''mi''. Com exceção do erro de voar tão perto do quente sol, ''usted tienes alas recibidas por nosotros''.
O Maestro iniciou a nossa caminhada para o interior do labirinto.
- Não tenha medo, você já esteve em outro labirinto e não se assustou.
- Eu? Só se naqueles que você colocou em vários de seus contos, pois que eu me lembre o máximo que cheguei perto de um labirinto foi o quebra-corpo no fundo da casa da minha tia lá de Assis.
O argentino não respondeu o meu comentário e, já sem o toc-toc-toc da bengala (que eu confesso não sei em qual lugar ele a colocou), seguiu firme.
- Vê se não fala muito alto, rapaz. Ele pode acordar e não sobra nada de nós dois - advertiu o Maestro, que prosseguiu - O outro labirinto ao qual me referi é o da língua portuguesa. Suas entradas e saídas são inúmeras. Sua arquitetura é tão complexa que realmente lembra um labirinto. Basta recordar que, em muitos casos, a grafia da palavra não é igual à pronúncia. No espanhol isto não existe: realmente não existe...
Nesse tom, que era velado e baixo, passou a me falar de Walt Withman. Explicou que as isoladas batidas dos tambores das tropas que marchavam cabisbaixas por entre a grama e a tristeza foram as coisas que mais marcaram e mais impressionaram o poeta americano durante os anos da Guerra Civil.
- Observe, por este aspecto, o quanto os ruídos são cruciais, ainda mais para dois homens que estão perdidos neste labirinto.
- Mas Maestro, o senhor me convenceu de que sabia o caminho da saída!
Ele não disse nada.
Apenas sorriu enigmático, como sempre fez nos seus contos.
Depois disso, seguimos calados e eis que surgiu em nossa frente um caminho bifurcado.
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Valdeci Ângelo Garcia,
30/3/2010 17:38:26 |
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Ramon, não tinha lido este seu novo conto. Muito bom, mesmo! Como disse o Andre, trata-se de um texto repleto de referências inteligentes. E por falar em labirinto, concordo com você quanto ao labirinto da Língua Portuguesa. Em matéria de labirinto, estamos em primeiro lugar, certamente! Abraços! |
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Andre Esteves,
9/2/2010 10:50:04 |
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O conto é ótimo, cheio de referências inteligentes, que só uma leitura atenta é capaz de revelar. |
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