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Orígenes Lessa e o conto brasileiro

Ramon Franco

 
 

Ramon Barbosa Franco

Não é ousadia afirmar que o paulista Orígenes Lessa está para o conto brasileiro, como Ernest Hemingway está para a literatura moderna norte-americana. Isto, só para enfocarmos uma das inúmeras influências de Orígenes na literatura brasileira. Assim como Hemingway, Lessa deixou uma vasta obra. Da mesma forma que o autor de ‘O Velho e O Mar’, o criador de ‘O Feijão e O Sonho’ compôs uma escrita direta, recheada de pontas de iceberg, estimulando o leitor a descobrir aquilo que está submerso nas águas da criação poética. Nascido em Lençóis Paulista no dia 12 de julho de 1903, Lessa estreou na literatura com o livro de contos ‘O Escritor Proibido’, lançado no ano de 1929. Os marilienses desfrutam desta raridade disponível na Biblioteca Municipal. O livro, uma edição de bolso, reúne 12 deliciosas histórias. A obra apresenta a gramática e a grafia na primeira metade do século passado, com escritor reproduzido ainda como ‘escriptor’, pais ainda como ‘paes’ e sistema ainda como ‘systema’. Mas nada disso tira a maestria da ficção de Lessa, este brasileiro que, assim como o norte-americano Hemingway, presenciou grandes momentos do século passado. Entretanto, o nosso Orígenes foi mais longe do que o apaixonado Ernest. O norte-americano se despediu do mundo nos primeiros anos da década de 60, ao disparar um rifle no palato. O brasileiro deixou vaga a cadeira de número 10 da Academia Brasileira de Letras na metade da década de 80, praticamente nos primeiros anos da nova democracia. Ele, que sentiu de perto a ditadura Vargas, o Estado Novo, a Segunda Guerra Mundial, o Golpe de 64, a Anistia dos anos 70 e a escolha de Tancredo Neves, viu pela televisão seu primeiro romance ser transformado em novela. ‘O Feijão e O Sonho’, que recebeu o prêmio Alcântara Machado, foi escrito em 1938. A obra conta a vida do casal Campos Lara e Maria Rosa. Ele poeta e escritor. Ela dona de casa e mãe. O título diz tudo e a obra foi muito lida por jovens nas décadas de 80 e 90, já que integrou a série Vaga-lume da Editora Ática. A série Vaga-lume era praticamente leitura obrigatória nas escolas públicas.

Contista

Quem lê as primeiras páginas de ‘O Escritor Proibido’, principalmente o conto-título, se assusta e se pergunta: ‘Como ele pode criar isto naquela época?’. Num período em que a literatura brasileira não sabia se mantinha as rimas métricas do passado ou abraçava a criação pura, Lessa sintetizou uma linguagem clara e popular, transformando em arte situações comuns. Mesmo se tratando de literatura, Lessa usa de um tremendo apelo visual que antecede a moderna linguagem cinematográfica. Ao longo dos demais trabalhos publicados, estas características vão se confirmando e se aperfeiçoando cada vez mais.
O Orígenes contista é o autor que segundo o crítico Ricardo Ramos libertou a criação brasileira dos padrões importados. De acordo com o crítico Ramos, Lessa foi sereno o bastante para não aceitar a pura e simples inovação do Modernismo. Com uma linguagem simples e de trabalhada fluência, o conto de Lessa ganhou uma arquitetura de formas ágeis.
Assim como Hemingway, que levou para a literatura norte-americana a produção concisa, precisa e prática do jornalismo, sem perder a qualidade criativa e poética, Lessa vestiu o conto brasileiro com os recursos lingüísticos tão ressaltados na literatura contemporânea de Rubem Fonseca, talvez o maior contista brasileiro vivo.

Ramon Barbosa Franco é jornalista e escritor em Marília (SP), co-autor da biografia ‘Laurinda Frade, receitas da vida’ (Poiesis 2009) e contista premiado nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro.
 
 

  Beto Guimarães, 2/2/2010 07:56:22
 
Artigos como este trazem para a Esquina do escritor uma grande contribuição para o engrandecimento do site. Parabéns, Ramon.
 

  Valdeci Garcia, 16/1/2010 09:06:56
 
Realmente, Ramon, o Lessa foi um dos maiores escritores brasileiros, além de exímio contista. Como poderemos esquecer contos como: "Um anjo apareceu a Marilu", "Um pequeno escoteiro", "A herança", "Milhar seco", e outros? Ótima lembrança a sua, no que se refere à série Vaga-Lume, que despertou em tantas crianças (como em mim) o gosto pela leitura. Abraços!
 

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