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A liberdade no meio de um parque.
Afoborio
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Já havia matado uma centena de vezes. A última fora uma menininha, coitada. Ela brincava de balanço quando ele a surpreendeu. Acabou sufocada por entre os brinquedos. Um triste fim para uma alma tão angelical quanto esquecida. A polícia chegou e prendeu o matador que ainda apertava o pescoço dela.
Dezoito anos depois, o laudo foi favorável. “Vá Antunes. Está pronto para recomeçar. E ligue sempre que precisar.” – foi o que disse o doutor em sua última avaliação. Um aperto de mãos serviu de adeus e selou o compromisso entre eles.
Assim que colocou os pés na rua, acendeu um cigarro. Olhava para o mundo com seus olhos grossos. Numa mistura de medo, surpresa e uma infinita sensação de incerteza. Sem ter para onde voltar, marchava por entre os prédios enormes e toda a loucura da cidade grande.
Carregava alguns trocados em seu bolso, um incentivo do governo para que recomeçasse. Entre um passo e outro, viu uma máquina de sorvete e não resistiu. Comprou um de nata. Adorava sorvete de nata.
Entre uma lambida e outra, sentiu que o gelado que descia pela sua garganta não era o suficiente para refrigerar o calor do sol que era impulsionado pelo seu casaco de tergal. Com a testa suada, atravessou a rua e sentou num banco.
A sombra das árvores abrandava o calor com a ajuda do gostoso sorvete. A energia da liberdade estava no ar. Sua cabeça estava agitada e seus pensamentos pareciam excitados por engrenagens iguais as de um relógio cuco gigante e descompensado.
O tempo marcava dezoito anos depois – e Antunes estava no parque, o mesmo onde matou pela última vez. Vendo e sentindo as mesmas sensações. As crianças brincavam nos brinquedos enquanto os pais fumavam maconha, bebiam cervejas e esqueciam seus querubins. Nesse momento, a vontade de matar floresceu.
Imediatamente, lembrou dos conselhos do doutor, “Antunes, os desejos e as conseqüências são seus.” “A sociedade não permite a matança.” “A contenção do ímpeto humano é necessária para a ordem.” “Conviver é hesitar.” Antunes sorriu. Balançou a cabeça. E agora? – pensou.
Aflito, acendeu outro cigarro. Olhou para o outro lado, numa tentativa de controlar suas emoções. Maldita hora. Encontrou uma menina passando. Onde estão os pais dela? – pensou. Vestido branco e bolinhas vermelhas. Loirinha, olhos claros, linda. Nesse momento sua língua salivou. Apertou as mãos e esqueceu-se do seu sorvete, que esfacelado, escorreu por entre seus dedos até derreter completamente.
“E ligue sempre que precisar.” – lembrou-se – mais uma vez do que disse o doutor. Andou até o orelhão e catou o cartão que estava em seu bolso. Discou e deu desligado. Enquanto isso, não conseguia desviar os olhos da menininha. Tentou mais uma vez e novamente deu na caixa de mensagens. E agora? – pensou.
Naquele mesmo instante, Antunes sofreu um choque mental incontrolável. O telefone ficou pendurado. Sentiu uma aceleração no peito. Ele precisava matar e já gozava dos primeiros resquícios de prazer. Em poucos passos chegou até a vítima. “Oi, tio. Quer brincar?” – disse ela, antes de ser sufocada. Em segundos, tudo terminou.
A polícia chegou e o matador voltou para o lugar de onde nunca poderá sair. E desde então, Antunes fuma olhando por entre as grades que cobrem a sua janela e sente vontade de matar. Já o doutor, esse bebeu cicuta e nunca mais liberou ninguém. Enquanto isso, o parque continua cheio de pessoas livres. |
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raquel ribeiro,
16/12/2009 18:57:01 |
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preciso,letal visceral...parabéns afobório! |
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Beto Canales,
14/12/2009 11:55:57 |
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Muito bom. |
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C. Ferreira,
14/12/2009 10:04:19 |
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Grande texto, Afobório. Parabéns! |
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Jana Lauxen,
13/12/2009 22:34:23 |
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"O tempo marcava dezoito anos depois".
Sensacional, irretocável, desconfortável.
:)
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