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Histórias da Noite - TerrorFantasia e Aventura.com - ação, fantasia e ficção científica.Pela Lente do PoetaA Vida é arte
 


Coração açucarado.

Afoborio

 
 

Acordo com o garnisé cantando, todos os dias. Viver sem nada é difícil, cara. Sabe como é? Um homem como eu, tem de ter capricho e vontade. A minha criação de codornas dá uns trocados. O garnisé serve para chocar os ovos, por que a cada dez meses, a produção baixa e tenho de renovar o plantel. Então eu vendo as matrizes velhas para o pessoal comer com macarrão.

Os ricos daqui gostam disso. É bem caro, esse tipo de carne. De manhã, a gaiola está cheia de ovos, todo dia, ainda bem. Recolho, limpo, embalo e depois entrego nesses restaurantes finos. Somados com o que ganho, vendendo lenha partida, eu consigo comprar alguns pincéis, canetinhas, comida. Agora a grana baixou, o inverno terminou, pouca gente quer lenha. É assim que faço para continuar a desenhar. Aqui onde vivo, a arte tem pouco valor.

Dei sorte, um dos caras que compra os ovos, precisava de alguém para cavar um poço no quintal. Vinte e cinco paus o metro cavado. Ele queria com quatro metros de profundidade. Cem paus é muito dinheiro. Topei na hora. Fiquei o dia todo fora. Estava longe de casa para voltar. O jeito foi nem avisar. E depois, chegar ao final do dia, com uma sacola, com cigarro, feijão, um chocolate para ela, arroz e uns trocos no bolso é festa.

O calor era duro. O quintal tinha muitos restos de tijolos encobertos pelo mato e a terra. Ossos em quantidade, eu precisei limpar o lugar, antes de pegar na picareta. Ganhei uma jarra de água gelada e um sanduba de mortadela. Estava muito bom. Acho que era dessas mortadelas de rico, que eu vejo nas propagandas da TV.

O cara até me deu outro, deve ter ficado com pena de mim. Fumei um cigarro e comecei. Terminei eram seis da tarde. Ainda bem que sou gigante. O cara ficou contente, disse que eu tenho vontade de trabalhar. Que bom que ele reconheceu. Pagou cento e vinte cinco, por causa da minha pegada. Fiquei surpreso. Ele até comprou um quadro por trinta paus. Fiquei feliz, chorei, agradeci. Foi por isso que comprei dois chocolates para ela.

Pensei que aquele poço era para ser uma dessas fossas secas, que não deixam a merda e o esgoto feder. É bem comum por aqui. Você conhece? O homem perguntou se eu topava encher o buraco de pedra. Aceitei é claro, era mais grana. Uns dez quadros a mais para divulgar o meu sonho. A gente tem de aprender a buscar o que quer. Não sou do tipo que fica chorando, pedindo. Eu gosto de agarrar o que quero. E você?

Cheguei até a vila quase oito da noite. O clima estava pesado. O medo andava pelas vielas. Como sempre. Ventava, a terra subia. As pessoas apressadas tomavam o rumo de casa. A quadra de esportes estava vazia. O tempo era bravio, ia chover.

Meu amor chorou, quando me recebeu, eu também. E olhe que eu cheguei sujo demais. Ela não se importa. Diz que o importante é a limpeza que carrego dentro do peito. Foi ela quem me ensinou esse tipo de coisa. Já aprendeu isso? Ela adorou as duas barras de chocolate ao leite. Fiquei feliz, por que consegui dar mais a ela.

Deitei e dormi logo que jantei. Embalado pelo barulho de água que corria no tanque. Ela é grande demais. A gente não tem lavadora. Você tem? No outro dia, acordei cedo, ela ainda dormia, deixei um poema ao lado dela. “Você me faz gigante.” Sempre faço isso antes de sair. Por que aqui é violento, posso não voltar, sei lá.

Nesse lugar, a segurança é por conta de cada um. O senado está bem longe da minha baixada, e a polícia não vem aqui para me proteger. Quando a lei olha a minha roupa, a minha condição, me torno um suspeito, não um cidadão. Sabia?

Novamente, catei os ovos, era mais grana. Que bom, uma semana de fartura cara. Já sentiu falta dela? Assim que cheguei, um caminhão descarregava as pedras para encher o poço. Recebi adiantado, mais cinqüenta paus. Eu até sorri.

O cara me disse:

- Blindado, fale comigo antes de começar.

Esperei. Em poucos segundos as pedras foram descarregadas. O homem me chamou. Andou comigo até um quartinho nos fundos.

- Blindado, você é feliz?

- Sou.

- Eu nunca fui.

Achei estranho, ele tinha tanto dinheiro, calei. Ele abriu a porta. Pegue isso e jogue dentro do poço, depois cubra com as pedras e arremate com a terra. Era uma mulher, tinha um tiro de doze no peito. A bala desenhou uma flor arregaçada. Estava cheia de moscas sobre o ferimento. Dizem que o sangue é açucarado. O disparo foi em cima do coração. Não perguntei nada. Tem coisas que é melhor a gente não saber.

Olhei nos olhos dele. Silêncio. Agarrei pelos pés, e atirei no poço como mandou. Antes do meio dia estava pronto. Ele me apertou a mão. Deu mais cinqüenta paus. Saí calado. Cheguei e meu amor me abraçou. Olhei nos olhos dela.

- Obrigado por me fazer feliz. – me emocionei, abracei forte.

Ela chorou. Depois colocou a mesa. Almoçamos. Em seguida, fui desenhar. Estava cheio de pincéis, canetinhas novas, cartolina, comida. De tão contente, fiz um jardim de flores coloridas numa folha A1, e colei no roupeiro escangalhado, esse eu não vou vender.
 
 

  Josué de Oliveira, 2/9/2009 17:53:53
 
Tocante e brutal. Realmente, há aqueles que conseguem ser feliz apesar de tanta coisa...
 

  Jana Lauxen, 2/9/2009 16:00:51
 
Grande Afobório!
Texto supreendente; lindo e sinistro.
Gosto muito do jeito como consegue misturar aquilo que, aparentemente, parece impossível de combinar, e ainda assim manter a coerência, o enredo, o sentido e a beleza.
Continue a nos brindar com tudo que se passa no seu fantástico mundo.
Um beijo meu.
 

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